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Esqueceram de mim

Martha Medeiros

Aconteceu dia 2 de agosto. Um menino israelense de oito anos estava se banhando no Mar Morto com seu pai e dois irmãos, quando correntes o levaram da costa sem que ninguém percebesse. Todos foram embora da praia sem dar pela falta do menino, que ficou boiando sozinho, à deriva, com a noite já caída. Só seis horas depois é que helicópteros o localizaram. A criança estava desidratada e assustada, mas em condições estáveis de saúde.

Um final feliz em termos. Porque “condições estáveis” é conversa. Já tivemos oito anos de idade e sabemos que, quando nossos pais se atrasavam 20 minutos para nos buscar no colégio, era um drama. “Eles me abandonaram, eles me esqueceram, eles nunca mais virão!” A escola esvaziava, as outras crianças já estavam a caminho de casa e a gente ali, solitário em frente ao portão, hirtos, a espera de um resgate salvador.

Agora imagine seis horas abandonado no mar! O garoto foi esquecido por três pessoas da família. E correu risco de vida, lógico. Sentiu fome, sentiu frio, sentiu medo e poderia ter virado o jantar de algum peixe de má índole. Seis horas! São três sessões de cinema seguidas! Uma viagem de ônibus até Florianópolis! Boiando ficou o guri em todos os sentidos: que fiz eu para ser esquecido?

Às vezes basta uma displicência, mesmo involuntária, para abrir um rombo na nossa segurança e auto-estima. Sartre dizia que um fósforo jogado a esmo pode incendiar uma casa inteira. É uma analogia: pequenos gestos, grandes estragos. O “fósforo” pode ser uma frase que você escutou atrás da porta durante a infância, e que guardou para sempre. “Este guri nunca vai prestar pra nada.” “Nossa filha é inteligente, mas feia e gorda desse jeito, não vai casar nunca.” “Se ele for gay, eu o expulso de casa e não cumprimento na rua.” “ Foi imprudência ter três filhos, poderíamos ter parado no Beto.”

E o Eduardinho, o terceiro filho, ali, atrás da porta, queimando.

Fósforos.

São tempos estressantes, os atuais. Excesso de horários, de compromissos e de frustações. Com a cabeça em outro lugar, é até possível esquecermos da hora de buscar um filho na escola ou, pior, esquecermos a criança no banco de trás do carros, dormindo. Basta ler os jornais, não é algo tão incomum. Mas o que não se pode esquecer, mesmo, é que toda a criança que é preterida pelos pais, mesmo por algumas horas, pode desenvolver um profundo prejuízo psíquico. “Que espécie de porcaria eu sou para me esquecerem no meio do mar?” Cercado de água, o fósforo do menino israelense deve ter queimado do mesmo jeito.


Domingo, 19 de agosto de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.